Blog do Ramazzini
Contos, crônicas, opiniões e qualquer outra bobagem relevante...
sexta-feira, 20 de janeiro de 2012
Cenas do cotidiano: a ligação da Tim
sexta-feira, 9 de dezembro de 2011
Férias!!!
sexta-feira, 11 de novembro de 2011
Conto: Quem sou eu

O sentimento de deslumbre surgiu em segundos. Foi ao passo de parar em frente ao espelho e contemplar todas as linhas do seu rosto e parte do corpo. “Perfeito”, pensa. Sem vestir a camisa, em suaves movimentos que mostravam o contorcer ordenado dos músculos dos braços e tronco, admirava-se com a intensidade de um Narciso.
Um leve sorriso no rosto brotou ao lembrar-se da noite anterior. Aninha. Finalmente, conquistara Aninha, sua musa e colega de profissão. Mas, como foi difícil. Há meses insistia e utilizava todas as estratégias possíveis. Flores, poemas e declarações públicas de paixão. Nada funcionava. Foi justamente quando mostrou o lado humano que se escondia atrás de uma casca forjada para se defender dos ataques da vida, em uma conversa em noite enluarada e sentado à beira de um rio, que floresceu o amor.
Recordando isso em frente ao espelho, vestiu a camisa. Seu corpo não interessou a Aninha, mas a sua alma que a seduziu ao revelá-la por completo. Em um instante filosófico, refletiu “Será que somos realmente o que pensamos ser?”. Olhou-se de cima a baixo. “Será que o mundo nos vê como realmente somos?”, pensou. E o momento socrático terminou com a indagação “Mostramos ao mundo quem realmente somos?”.
Via-se como um homem de dotes corporais e inteligente por natureza. Poeta da vida nas horas vagas, bem humorado e com instinto para os negócios. No entanto, as próprias percepções não importaram para Aninha, que preferiu mergulhar e desvendar seu interior.
Saiu para trabalhar com as questões pulsando em seus pensamentos na busca de respostas. Foi interrompido por um cumprimento:
- Bom dia, João das verduras!
Com um aceno leve retribuiu a saudação. “O mundo não nos vê como realmente somos”, pensou e sorriu. Em meio a fraquezas e virtudes, talvez, seja melhor deixar que apenas poucas pessoas descubram o brilho de uma alma.
E continuou a caminhada até a Feira livre de verduras e frutas onde encontraria Aninha...
sexta-feira, 4 de novembro de 2011
Conto: Amigo no Facebook
Em uma rua qualquer.
- Oi, Jean! Tudo bem?
- Oi... Tudo... Tudo... E contigo?
- Também!
- Que legal te encontrar!
- Ah, é?
- Claro! Adoro o que tu escreves no Facebook... Mensagens lindas... Tornei-me tua fã!
- Que bom...
- Precisava te dizer isso... Vivo na tua página lendo as mensagens... Gosto muito quando falas de amor... Tem sentimento, tem alma o que escreves...
- Tá bom! É de lá que nos conhecemos, então?
- De lá, o quê?
- Do Facebook que nos conhecemos...
- Sim! Sim! Nós tornamos amigos no começo do mês, não lembra? Sou sua amiga 1888... Isadora...
- Ah, sim... Claro!
- Vivo curtindo e partilhando as tuas frases com as minhas amigas... E, também, dando uma olhadinha no teu álbum de fotos para ver se não colocaste algo novo...
- Sei...
- Eu me sinto como uma amiga íntima tua, afinal, sei tudo que fazes, o que gostas, onde trabalhas, onde se diverte, com quem andas...
- Sei...
- É legal conhecer uma pessoa, assim... Primeiro pelo que ela pensa... Pelo intelecto... Pela inteligência... E, também, porque não, pela sensibilidade...
- Deve ser...
- Deixa a pessoa muito mais interessante... Atrai mais... É o teu caso...
- Sei...
- Sei lá... Desperta... Sabe?
- Sei...
- E, confesso que, pessoalmente, tu és mais bonito, também!
- Obrigado!
- Então...
- Pois é...
- A última mensagem no “Em que estás a pensar” estava muito boa...
- Ah tá!
- Não sei de onde tu tiras tantas ideias!
- Pois é...
- É uma atrás da outra...
- Pois é...
- Então...
-Vou lá, ok?
- Certo, Seu Jean! Prazer em conhecê-lo pessoalmente... Não apenas no mundo virtual...
-Pois é... Também!
- Fui! Tchau!
- Tchau!
Fim da conversa. Jean sai para um lado e Isadora para o outro, reclamando para si mesma: “Eu não acredito! Como pude me enganar tanto! O cara é um chato monossilábico! Quem não vê cara, não vê coração mesmo. Já diz o ditado!”. E corre para frente do computador para remover a amizade...
sexta-feira, 28 de outubro de 2011
Conto: Reflexo

Numa lanchonete. Uma multidão entra e sai, come e bebe, cumprimenta-se e fala no lugar. Senta-se a uma mesa. Beberica um café. Os pensamentos perambulam soltos na velocidade da agitação dos presentes. Os olhos fazem movimentos contínuos para todos os lados acompanhando cabelos, rostos e pernas.
“Quantas histórias de vidas em só espaço”, pensa. Em meio a tanta gente, focaliza o olhar em uma mesa. Uma jovem loira entre 21 e 24 anos que toma um café. Está sozinha. Mônica. Deve se chamar, Mônica. Assim, deduz. Tem um ar triste. Depressiva, talvez. Passa a imaginar os motivos. Frustração profissional? Pode ser.
Pela roupa, parece ser recepcionista. Ninguém gosta de ser recepcionista. Mas, ao analisar mais profundamente, os olhos deixam transparecer que é algo mais profundo do que acordar às 6 da manhã, pegar três ônibus e aturar o dia inteiro um chefe incompetente no trabalho. “É mais que isso”, reflete. Falta de dinheiro? Pode ser.
Ser despejada do apartamento por falta de pagamento. Duro golpe. As incertezas do futuro geram apreensão. O ser humano não se habitua às contínuas mudanças da vida. Prefere a rotina, apesar de negá-la. Não. Aqueles olhos refletem as profundezas da alma. Só uma coisa pode tocar tão fundo. O amor. Claro, o amor. Desilusão? Rompimento? Paixão não correspondida? Fica a dúvida. Mas, obviamente, é por amor que aquela mulher sofre. “Como não percebi antes?”, pensa.
Agora, observa um jovem. Usa óculos e cabelos bem cortados. Toma uma coca-cola, em uma mesa bem à frente. Está sozinho. A face séria deixa transparecer que é um sujeito sério. Estudioso. Sim, estudioso e ligado a tecnologias. Parece ser o cara que toda mulher quer na vida. É para casar, como dizem. Comportado, engraçado e amoroso, que não deixa desabrochar esse lado por causa da timidez. Diz para os amigos que curte Pearl Jam, mas no fundo, escondido no recôndito do quarto, escuta Zeca Pagodinho.
Um casal conversa animadamente na mesa ao lado. São amigos, aparentemente. Atrás daquelas histórias de vida há um segredo. Ele esconde uma paixão secreta por ela. Até parece coisa de novela. Ela conta seus dramas, aventuras e frustrações amorosas. Isso só faz aumentar sua admiração. Os olhos refletem o encantamento dele por aquele ser humano. Só ela não percebe. Ingenuidade ou artimanha?
Noutra mesa uma morena fala ao telefone. Linda. Olhos verdes que deixam transparecer traços da personalidade. Uma personalidade forte. O mundo é dos fortes. Ou isso não passa de uma casca para esconder as fragilidades e medos? Pensa: “Aposto que deitada na cama chora feito criança. Ninguém é só razão ou emoção. É a mescla. Humano. Mas, precisa-se conservar a imagem. E a maquiagem”.
Olha para a mesa à sua esquerda. Parece uma boa história de vida. Uma mulher de trinta e poucos anos lambe a colher do cafezinho e lê um livro. A imagem de uma pessoa lendo reflete automaticamente que ela é culta. Ou está buscando cultura. O que rivaliza com o ato de molecamente lamber a colher. “Mundo cheio de convenções”, pensa. Cada um é livre para fazer o que quiser. Desde que não pese na consciência. Nem que “encha o saco” dos outros. Estereótipos construídos pela televisão. Todo mundo tem dois lados. Ou mais.
São 13 horas e 55 minutos. O relógio diz que é hora de voltar ao trabalho. Tentar desvendar o mundo, imaginar as histórias alheias, é um passatempo divertido. Reflexivo também. “Procurar esmiuçar os sentimentos dos outros faz entender melhor a vida”, pensa. Hora de partir. Amanhã tem mais. Levanta-se e dirige-se até o caixa para pagar o café. Um pensamento surge como um raio. Ou melhor, uma constatação. Não estava imaginando, nem desvendando as histórias alheias. Estava apenas projetando a própria historia e sentimentos em outros personagens.
quinta-feira, 13 de outubro de 2011
Conto: Você já parou para pensar?

A: Você já parou para pensar?
B: Pensar o quê?
A: Que nesse exato momento em que estamos aqui...
B: O que tem?
A: Tem um monte de coisa acontecendo no mundo?
B: Como assim?
A: Imagina... Nesse exato instante: em algum lugar do planeta tem uma criança nascendo, uma pessoa morrendo, alguém dormindo, alguém acordando, alguém gritando...
B: Ah... Entendi a proposta... Legal! Eu diria: fazendo sexo!
A: Safadinho!
B: Mas, é...
A: Está bem! Vamos brincar de imaginar coisas mais específicas...
B: Como assim?
A: Tipo... Nesse momento no mundo tem alguém derrubando um pão com margarina no chão, por exemplo...
B: Entendi... Vamos lá... Quebrando uma chave...
A: Prensando um dedo em algum lugar!
B: Assinando um documento!
A: Lixando as unhas!
B: Espirrando!
A: Falando ao celular!
B: Tropeçando!
A: Correndo de um tiroteio!
B: Correndo de um tiroteio?
A: Por que não?
B: Está bem... Está valendo! Deixa-me ver... Serrando uma árvore!
A: Escovando os dentes!
B: Tomando uma cachaça!
A: Comendo um Bic Mac!
B: Arrotando!
A: Argh!
B: Está valendo, também!
A: Está bom... Ligando uma lâmpada!
B: Cortando a grama!
A: Rezando!
B: Fazendo uma tatuagem!
A: Pilotando um avião!
B: Desenhando!
A: Discursando!
B: Mergulhando!
A: Zapeando na TV!
B: No banheiro fazendo o número 1!
A: E o número 2, também!
B: Há! Há! Há!
A: Há! Há! Há!
B: Pois é... São muitas coisas!
A: É...
B: O que foi? Por que essa cara?
A: Passou-me um pensamento agora?
B: O quê?
A: Sobre a vida...
B: Como assim?
A: E nós?
B: O que tem a gente?
A: Nesse momento...
B: O que tem?
A: Estamos fazendo o que gostaríamos de estar fazendo?
B: Como assim?
A: Será que não tem nada mais útil para se fazer no mundo do que ficar lendo um conto do Rodrigo Ramazzini?
B: É... Né? Tens razão!
A: Só nós mesmos! Deixa isso de lado...
B: Já deixei...
A: Liga a TV...
B: Ligando... Foi!
A: O que está passando?
B: Desenho do Bob Esponja...
A: Oba! Agora, sim!
B: É... Realmente, agora sim!